Tudo que sabiam sobre mim era que eu era humana e ainda assim já ouvi alguns dizerem que não tinham certeza. Poucos humanos sabiam de minha existência e poucos ainda davam palpites sobre mim.
Faço honra ao meu nome, e por acaso meu sobrenome é stranger, herdei de minha família que nem sei se é minha mesmo. Quando eu era viva cheguei a pensar na possibilidade de ser adotada, mas não procurei saber nem me importei muito, mas agora vejo que algumas coisas fazem um pouco de sentido, nunca conheci meus pais, fui criada por duas pessoas que eu chamava de vô e vó, fui instruída pra falar Isto e para eles eu pouco importava.
Na verdade eu não sabia o sentido da vida quando eu a possuía, pra mim tudo era natural, até mesmo as coisas que a televisão mostrava como desumano. Não, aquilo era simplesmente natural, nunca consegui ver o que teria de tão horrível, não me traziam nenhum sentimento, as coisas tendem a acontecer, é tão simples.
Sempre quis conhecer os limites, ninguém nunca me ensinou. O que era certo ou errado eu só compreendia por mim mesma. Algumas vezes minha avó dizia que achava errado o que eu fazia, mas eu não conseguia compreender sua opinião.
Eu sempre fui assim, ninguém nunca se importou com a minha existência, nem mesmo eu.
Em todos esses anos que me pertenceram eu vivi por viver e por incrível que pareça eu tenho uma história pra contar, embora seja só essa.
Nunca fui a escola, aprendi tudo por mim mesma, nas horas vagas que eu passava na fazenda do meu avô, lá havia muitos livros e eu aprendi a ler com a minha vó.
Por volta dos meus 13 anos os pensamentos não paravam de invadir a minha cabeça, tudo era motivo pra pensar, e eu adorava pensar, porque a minha mente era minha única companheira agradável e assim ninguém me julgava pelas coisas que o mundo achava sujo e eu pensava. E ainda acham, e ainda penso.
Mas no meio de todos os meus dias houve uma exceção a tudo que eu tinha e essa exceção tinha nome, o nome dela era Alice. Todos passavam os olhos por mim e nunca me enxergavam, talvez Alice tivesse me enxergado, ou talvez eu tinha sido a única opção de conversa naquele momento em que ela se sentiu sozinha na fazenda.
É claro que eu já tinha conversado com alguém, mas a minha conversa com ela tinha sido a mais impactante, era uma melhor que a outra e não foi só isso de impactante que nós fizemos. Ela me mostrou que realmente não havia limites, aqueles que eu tanto queria conhecer, eu já desconfiava da inexistência dos mesmo, ela só me provou.
Quando a conheci minha vó me apresentou como uma prima que veio morar conosco, fico pensando se ela também não foi adotada por eles, pena que nós não tivemos tempo pra conversar sobre isso.
Eu comecei a perceber o que havia por trás daquele celeiro e aqueles animais da fazenda. Alice me levou a cidade, ela parecia conhecer aquele mundo. Não me importava como ela veio parar na minha vida, só importava ela estar ao meu lado.
Bastou um dia e ela virou a minha amiga e eu não sabia nada da sua vida, nem ela da minha, mas eu depositei toda minha confiança naquele ser, afinal minha vida não me importava.
Depois de uma semana eu já tinha experimentado 2 tipos de drogas diferentes, passei seis noites acordada com ela, beijei ela, não sei se a amei, mas eu só queria estar por perto, bebi, roubei e o melhor: fui procurada pela policia por falta de experiência, quando eu perguntei a Alice se ela tinha ficado com raiva porque fracassei ela me disse que a vida era um fracasso e que é natural acontecer isso. É tão incrível como ela pensa igual a mim, só queria ter conhecido ela há mais tempo e saber da sua vida, agora fico imaginando o que mais eu poderia aprender com aquela garota e o que mais a gente iria fazer, acho que eu chegaria a amá-la e olhe que vovó diz que eu não tenho sentimentos.
No sexto dia que estávamos juntas ela decidiu que de tarde a gente ia arranjar algo pra nos manter acordada a noite toda, parecia saber muito bem do que estava falando. A gente ia passar a noite perto do celeiro, só eu e ela, e cada uma contava a sua história de vida, já que não tivemos tempo de nos conhecer, a minha não duraria 2 minutos, a dela devia ser longa, afinal ela reservou a noite toda.
Chegou a noite e lá estávamos nós, eu não lembro muito bem de como a gente estava porque eu tava sob um efeito muito forte, mas eu tenho algumas memórias, a gente nem conversou ela só fazia me beijar e parecia querer algo mais, mas não deu tempo. Não lembro muito, mas acabamos adormecendo e o celeiro pegou fogo, talvez por causa dos cigarros e foi assim que morremos junto com alguns cavalos.
Isso tudo foi o acaso, ela não era tão interessada em mim, só queria curtir um pouco. Acho ótimo termos morrido junto, pois não a imagino vivendo com ninguém tudo o que viveu comigo e sem ela eu não saberia viver.
A sensação de estar com ela me fazia sentir algo e na minha vida eu não costumava sentir nada nem bom, nem ruim.
Não sei se consegui amar Alice, talvez ela tenha sido minha única opção.
Agora eu conheço dois limites, não posso interferir em Alice, naquele complexo que ela era, esse era um limite, não podia fazer com que ela gostasse de mim tanto quanto eu gostava dela, não podia fazer nada sobre o que ela queria. O outro é que depois da morte não podemos voltar e apagar os cigarros acesos para que nada incendiasse, para que ainda tivéssemos umas historias pra contar, não podemos concertar o passado, seriam esses os únicos limites existentes? Eu ainda não tenho respostas. Talvez tenha vivido muito pouco pra perceber, mas não me preocupo com isso, de qualquer jeito eu iria acabar morrendo e tanto faz se alguém estiver chorando no meu velório agora, isso é simplesmente natural.
Helouize Dias